{"id":1421,"date":"2017-04-21T17:08:15","date_gmt":"2017-04-21T17:08:15","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopolitica.com\/?p=1421"},"modified":"2017-04-24T17:46:26","modified_gmt":"2017-04-24T17:46:26","slug":"1421","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/acaopolitica.com\/index.php\/2017\/04\/21\/1421\/","title":{"rendered":"A teoria da arrancada &#8211; 03"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #0000ff;\">A teoria da arrancada<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\">Ricardo Bergamini<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">A ci\u00eancia econ\u00f4mica, a despeito de catadura severa, \u00e9 peculiarmente vulner\u00e1vel a &#8220;modas&#8221;. A come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio jarg\u00e3o econ\u00f4mico. Quando, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, eclodiu o interesse na coopera\u00e7\u00e3o internacional para o desenvolvimento econ\u00f4mico, os pa\u00edses n\u00e3o industrializados eram chamados &#8220;pa\u00edses pobres&#8221;, refletindo uma vis\u00e3o est\u00e1tica, quase fatalista, do subdesenvolvimento. Subsequentemente, passamos a uma era de &#8220;pessimismo din\u00e2mico&#8221;, mudando-se a apela\u00e7\u00e3o para &#8220;pa\u00edses retardados&#8221; (o que pelo menos implicava a possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o pelo avan\u00e7o), e depois para &#8220;pa\u00edses subdesenvolvidos e menos desenvolvidos\u201d. Mais recentemente, atingimos uma fase de otimismo din\u00e2mico, em que a express\u00e3o usada era a de &#8220;pa\u00edses em desenvolvimento&#8221; e, finalmente, a atual de &#8220;pa\u00edses emergentes&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Outra irresist\u00edvel moda foi a &#8220;teoria da arrancada&#8221; (take-off&#8221;), imaginosamente formulada por Walt Rostw, como uma resposta \u00e0 fraseologia obsoleta do manifesto comunista. Ao inv\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o do feudalismo para burguesia mercantil, o capitalismo industrial e o socialismo, teriam, com aplica\u00e7\u00e3o muito mais gen\u00e9rica, independentemente de sistema ideol\u00f3gico, a transmuta\u00e7\u00e3o da sociedade a &#8220;arrancada&#8221; para o desenvolvimento, passando-se em seguida \u00e0 sociedade industrial madura e \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o de alto consumo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Os requisitos econ\u00f4micos da arrancada seria a cria\u00e7\u00e3o de uma infraestrutura, principalmente no setor de transportes; em segundo lugar, um surto na produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola capaz de financiar a industrializa\u00e7\u00e3o; em terceiro lugar, um n\u00edvel de poupan\u00e7a de no m\u00ednimo 10% a 12% ao ano; em quarto lugar, a exist\u00eancia de capacidade de importar, seja mediante exporta\u00e7\u00f5es, seja mediante o influxo de capital, para aquisi\u00e7\u00e3o de equipamentos e mat\u00e9rias-primas industriais; em quinto lugar, a emerg\u00eancia de setores de vanguarda &#8220;que deflagrem o processo de moderniza\u00e7\u00e3o&#8221;. Pressup\u00f5e-se ainda a exist\u00eancia de um n\u00facleo empresarial capaz de absorver tecnologia. Em determinadas situa\u00e7\u00f5es, a arrancada pode ainda ser estimulada por um nacionalismo reativo, quando a popula\u00e7\u00e3o se solidariza face \u00e0s amea\u00e7as externas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">A vantagem dos est\u00e1gios de crescimento de Rostow sobre a formula\u00e7\u00e3o marxista \u00e9 que aquele admite e incorpora vari\u00e1veis n\u00e3o econ\u00f4micas, enquanto no modelo marxista os interesses de classe e as ideologias s\u00e3o estritamente fun\u00e7\u00f5es das t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">A for\u00e7a que presidiu ao desenvolvimento ocidental nos \u00faltimos duzentos anos foi o credo &#8220;individualista e utilit\u00e1rio&#8221;. Mas como o fizeram notar Myrdal, Robbins e o pr\u00f3prio Rostw, esse credo n\u00e3o se concentrou exclusivamente na promo\u00e7\u00e3o de motiva\u00e7\u00e3o lucrativa e na defesa da propriedade privada, conforme a acusa\u00e7\u00e3o, marxista. Ao longo do tempo, o credo individualista e utilit\u00e1rio evoluiu no sentido da defesa da liberdade pol\u00edtica e do voto unit\u00e1rio; implantou o controle dos monop\u00f3lios, desenvolveu uma legisla\u00e7\u00e3o social que moderou o incentivo do lucro e tornou respeit\u00e1vel, sen\u00e3o dominante, a motiva\u00e7\u00e3o do bem-estar; e finalmente, criou o imposto de renda progressivo, como poderoso instrumento redistributivo e moderador da absor\u00e7\u00e3o da mais valia pelo capitalista.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">H\u00e1 v\u00e1rias obje\u00e7\u00f5es \u00e0 &#8220;teoria da arrancada&#8221;. A evid\u00eancia hist\u00f3rica parece inconclusiva. Os est\u00e1gios s\u00e3o imprecisamente definidos, os fatos s\u00e3o duvidosos e em v\u00e1rios casos as datas assinaladas por Rostow como &#8220;limiar cr\u00edtico da arrancada&#8221; s\u00e3o question\u00e1veis, indicando um processo de crescimento mais ou menos cont\u00ednuo e n\u00e3o uma &#8220;arrancada dram\u00e1tica&#8221;. Mas sem d\u00favida alguma, pela sua amplitude de concep\u00e7\u00e3o e pela caracteriza\u00e7\u00e3o do processo de desenvolvimento como um processo societ\u00e1rio global, contrastando com a estreita \u00eanfase marxista sobre t\u00e9cnica de produ\u00e7\u00e3o, a teoria da arrancada merece lugar de destaque no pensamento econ\u00f4mico moderno.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Tendo-se, entretanto, transformado em &#8220;moda&#8221;, a manipula\u00e7\u00e3o incauta da teoria rostowiana apresenta alguns perigos, entre os quais cabe ressaltar o do &#8220;tratamento anal\u00f3gico&#8221; e o da &#8220;hip\u00f3tese linear&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Conquanto Rostow tenha admitido motiva\u00e7\u00f5es n\u00e3o econ\u00f4micas, h\u00e1 subjacente \u00e0 sua id\u00e9ia uma esp\u00e9cie de &#8220;universalidade de motiva\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas&#8221;. Ora, existem casos bizarros de civiliza\u00e7\u00f5es que sistematicamente degradam a motiva\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. A revolu\u00e7\u00e3o cultural refletiu muito mais uma preocupa\u00e7\u00e3o de pureza ideol\u00f3gica do que de efici\u00eancia econ\u00f4mica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Tamb\u00e9m question\u00e1vel \u00e9 a hip\u00f3tese linear, isto \u00e9, que a &#8220;arrancada&#8221; leve a um desenvolvimento cumulativo e cont\u00ednuo, pela admir\u00e1vel mec\u00e2nica dos juros compostos. Na realidade, a hist\u00f3ria registra in\u00fameros casos de &#8220;reca\u00edda&#8221;. E esses exemplos s\u00e3o particularmente frequentes na Am\u00e9rica do Sul. A Argentina j\u00e1 havia atingido ao in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial um n\u00edvel de renda capaz de lhe dar velocidade autopropulsora. Fora na Am\u00e9rica Latina o primeiro pa\u00eds a dispor de eletricidade e telefones, e Buenos Aires construiu seu &#8220;metr\u00f4&#8221; em 1913. Na d\u00e9cada dos vinte, sua produtividade agr\u00edcola rivalizava a dos Estados Unidos. A instabilidade pol\u00edtica, entretanto, resultante da cis\u00e3o do corpo pol\u00edtico entre o &#8220;peronismo&#8221; e os partidos tradicionais, provocou dez anos de estagna\u00e7\u00e3o, seguidos de um crescimento at\u00e9 hoje incerto e hesitante. Em menor escala, o Uruguai e o Chile pareciam ter transposto as barreiras do subdesenvolvimento para depois sofrerem a estagna\u00e7\u00e3o. E o Brasil na primeira parte da d\u00e9cada dos anos sessenta perdeu tamb\u00e9m, por desastres pol\u00edticos, o \u00edmpeto desenvolvimentista que exibira nos anos cinq\u00fcenta, e somente ap\u00f3s a &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o de 1964&#8221; retomou um caminho firme de crescimento, na m\u00e9dia hist\u00f3rica de 6,22% ao ano no per\u00edodo de 1964\/84. Posteriormente, ap\u00f3s implanta\u00e7\u00e3o da Democracia Meia-Sola em 1985 tivemos nova reca\u00edda, entrando em nova fase de decad\u00eancia, amargando med\u00edocres taxas de crescimento econ\u00f4mico, na m\u00e9dia de 2,51% ao ano no per\u00edodo entre 1985\/ 2016. Indicador respons\u00e1vel pelo atual estado de putrefa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, financeira, pol\u00edtica e social do Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Faz-se assim necess\u00e1ria, paralelamente \u00e0 &#8220;teoria da arrancada&#8221;, uma &#8220;teoria da recidiva&#8221;, uma esp\u00e9cie de vers\u00e3o do colapso das civiliza\u00e7\u00f5es. Essa teoria tem que se assentar nos impasses e c\u00edrculos viciosos, caracter\u00edsticos do subdesenvolvimento. \u00c9 menos uma quest\u00e3o de vari\u00e1veis econ\u00f4micas que de contexto pol\u00edtico e social em que opera a sociedade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Longe, portanto, de ser um processo constante e retil\u00edneo, o desenvolvimento \u00e9 uma aventura amea\u00e7ada por impasses.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #0000ff;\">Ricardo Bergamini<br \/>\n(48) 99636-7322<br \/>\n(48) 99976-6974<br \/>\nMembro do Grupo Pensar+ <a href=\"http:\/\/www.pontocritico.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.pontocritico.com<\/a><br \/>\n<a href=\"ricardobergamini@ricardobergamini.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ricardobergamini@ ricardobergamini.com.br<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.ricardobergamini.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.ricardobergamini.com.br<\/a><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A teoria da arrancada Ricardo Bergamini A ci\u00eancia econ\u00f4mica, a despeito de catadura severa, \u00e9 peculiarmente vulner\u00e1vel a &#8220;modas&#8221;. 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